Você foi enganado: coronavírus não reduz poluição

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Uma das muitas informações que circulam em tom alarmista – ou como verdade pronta – é que a pandemia do Coronavírus vai ajudar a diminuir a poluição. Pululam vídeos de animais aparecendo em locais que há décadas não se via; cidades com melhores qualidade do ar, gráficos com tendências de menor emissão de gases do efeito estufa (GEE).

Há quem fale na “volta do homem às suas origens”,  e até quem diga que a pandemia foi uma boa coisa para a humanidade. Bem, é preciso separar o que é real e o que é apenas tendência. 

De início, a redução que se verifica – e que sim, é real –  ocorre de maneira apenas pontual e temporal. A longo prazo, e é isso que importa em termos de conta a ser feita, não haverá diminuição de poluição como se propaga, mas uma “compensação”. Vejamos.

Animais e poluição do ar

Analisemos os dois casos mais notórios. Primeiro, o retorno de animais em locais predominantemente urbanos ou mesmo estradas isoladas, é naturalmente esperado: com a redução de veículos e gente circulando, há mais silêncio e mais espaço. Muitas espécies sentem-se mais à vontade para (re) ocuparem estes ambientes.

Por outro lado, quando a economia voltar ao “normal”, não se engane, as máquinas retornarão e com elas barulho, gases e gente disputado o mesmo espaço. Os animais não voltarão.

Para a  (des) poluição do ar o raciocínio é o mesmo. A parada pela quarentena (nos locais que parou de verdade e não de brincadeira) esta verificação será temporária e, por mais longa que seja, em algum momento será interrompida. A pandemia não vai mudar nosso jeito de produzir bens e serviços. 

Mas, ora, neste período não houve de fato redução de poluentes e não seria um ganho? Sim – e algumas estimativas iniciais falam em até seis vezes mais que a crise de 2008 (cálculos aqui). Por outro lado, este resultado não será maior do que as emissões que ocorrerão na volta. E logo, a conta que deve ser feita é a longo prazo, e não apenas agora.

Aquecimento global menor?

Tomemos o exemplo da emissão dos gases do efeito estufa (CO2 o mais famoso deles). Tem se falado até que a crise do COVID-19 resolveria o problema do aquecimento global. Não é verdade. 

Ha dois fatores para suportar esta afirmação. O primeira é o mesmo do raciocínio anterior: uma queda natural de agora, mas com retorno depois (e mais forte). Neste caso, a questão a ser analisada é que, depois de toda recessão mundial, a fase seguinte é a retomada. Alguns países o farão de forma mais lenta e outros nem tanto.

Como se sabe, para compensar o tempo perdido, diversos setores vão pisar mais pesado no acelerador. O que se espera, a partir de um determinado ponto (que ainda não sabemos qual e quando exatamente) a demanda pelos produtos poluidores voltará (petróleo, papel, madeira, alimentos etc). 

O segundo fator tem relação com questões mais complexas. Mesmo que houvesse uma queda a números negativos, a quantidade de gases já existentes na atmosfera (acumulados nos últimos 150 anos) não deixariam de existir so pela pandemia.

 Dito de outra forma: ainda que se zerasse por cinco ou mesmo por dez anos as emissões de CO2, ainda assim, não se reverteria o cenário de aquecimento do planeja. Estes gases não seriam retirados do ar, até por uma lógica de físico-química. 

Se fizermos a conta da queda em sí, somada ao aumento que se dará em seguida, o resultado será mais poluentes (e mais GEE), comparado a um cenário sem pandemia. Várias análises caminham nesta direção (ver aqui).

Então, sim, a crise do COVID-19 vai dar uma trégua aos poluentes por algum tempo, mas estamos longe de resolver a crise da poluição e do aquecimento. Estas, nem mesmo uma pandemia dá jeito. 

Fonte da imagem: Cidade de Wuhan, China. Edição do autor. Disponível em https://cdn.theatlantic.com/thumbor/wIusVMqgBIfpkJqj_a1MZVeView=/1200×800/media/img/photo/2020/02/photos-empty-streets-china-amid-cor/c02_1198372659/original.jpg