O lixo é uma questão ambiental (mas eu discordo)

0
105

No tema lixo há um excessivo apelo ambiental. A impressão que fica – quase como um mantra –  é que se trata apenas de uma questão de proteger o meio ambiente. 

Por que há um peso maior a este fator? 

É obvio que ao cuidar dos resíduos sólidos protegemos mananciais hídricos superficiais (rios, lagos e oceanos) e subterrâneos (lençóis freáticos). E, portanto, é um tema de conexão ambiental. Não se nega esta relação de causa e efeito.

Por outro lado, a resolução do problema do lixo – do ponto de vista de estratégias, planos ou projetos (especialmente nas médias e grandes cidades) – , nao se resolve com poemas e declarações de amor à natureza. Em verdade passa por fatores não-ambientais. 

No texto anterior (Ideias para estimular a reciclagem, ver aqui), trouxe alguns destes fatores para além unicamente da camada ambiental (e em alguns casos até emocional). O caminho parece ser o de incluir, mais seriamente, aspectos econômico, político e social. O ambiental, sejamos francos, será uma consequência daqueles três.

Um problema econômico

Não é preciso ser gênio para saber que coletar, transportar, destinar e – no melhor dos mundos reutilizar o lixo – depende da calculadora. O transporte é muito caro e, sem resolver o gargalo econômico, os resíduos sólidos continuaram a ser uma “pedra no sapato”.

Por exemplo, é preciso reinventar o modelo de atracão de investimentos no setor e encontrar outras saídas, para muito além dos milionários contratos de coleta. Uma ideia – entre muitas outras –  que surge nos anos recentes, é a da geração de energia (e renda), por meio da queima dos gases gerados nos aterros.

Outra possibilidade é o fortalecimento dos catadores. Felizmente esta alternativa tem crescido, mas ainda timidamente, o que requer a inclusão de outros atores (o fator estímulo que falamos ver aqui pode ser fundamental).

Mesmo assim, engana-se quem pensa que se trata apenas de ter recursos. Se assim fosse, grandes cidades do pais mais rico do planeta, Estados Unidos, seriam o modelo para este problema. Mas não são. 

Além de engajar o cidadão e de se ter dinheiro, é preciso garantir as condições para que as coisas continuem funcionando independente de partido ou quem for eleito. Por isso, o segundo pilar é o político, que reflete no social.

Um problema político e social

Dado o fraco e baixo nível da maioria das campanhas eleitorais, quando se inclui os resíduos sólidos nos debates é, basicamente, para se falar de contratos de coleta. Mas, limitado a este aspecto, o debate é pobre e raso: resolve-se somente o problema de hoje, sem pensar no amanha.

As leis locais devem focar no binômio estímulo-prêmio e educação. No primeiro, atinge-se o usuário (empresas ou cidadão) no formato de prêmios. Este tipo de abordagem é, no final das contas também econômico. 

No segundo, embora seja um lugar comum (e é), há de se insistir na inclusão das gerações futuras. As  atuais (considero aqui dos 30 anos em diante) não foram educadas para tratar o lixo na concepção dos três “Rs”(reduzir- reciclar- reutilizar). Atacando este problema, reduziria-se parte da entrada do lixo nas ruas. 

Conclusão: pensar em lixo não é somente preocupação ambiental. Atrair novos investimentos ao setor e integrar as políticas locais de resíduos, com estímulo-prêmio e formação educacional dos pequenos pode ser a chave. Não é fácil, mas os caminhos estão dados.