Ideias para estimular a reciclagem

0
71

Vimos, no texto anterior, que um dos problemas da reciclagem, entre outros, é o fato de não haver um estímulo efetivo: as pessoas comuns e o setor comercial/industrial, não conseguem ver, de forma concreta, o beneficio de se separar o lixo. 

Lembra-se, ademais, que o objeto “lixo” é, via de regra, um desafio: não é necessariamente algo agradável para quem quer dar um destino mais adequado.

Por isso, infelizmente, o apelo simplista ao “ambientalmente correto” ou a “consciência ambiental” somente tem resultado em uma baixíssima proporção da população. Ao restante – e grande maioria – é preciso ver uma vantagem prática, palpável.

Foco no cidadão ou no setor produtivo?

Quando se fala em estimular padrões de comportamento, há dois caminhos: estímulo ou punição. Este último não é o adequado, pois falamos em mudar padrões de comportamento numa abordagem pro-ativa e nao a reativa.

O estimulo é o velho modelo da recompensa: uma determinada tarefa pode se alcançada quando algo tem um retorno ao grupo alvo. Há duas análises importantes nesta abordagem do estimulo, uma ao setor produtivo e outra ao cidadão comum, vez que ambos são responsáveis tanto pela produção quanto pela coleta e reciclagem. 

O setor industrial/comercial, por imposição da lei de resíduos sólidos (Lei Federal 12.305/10), está atrelado a uma série de ferramentas, a mais importante, a da logística reversa (coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento). 

Observa-se, contudo que, ainda que aquele setor faça o que pede a Lei, sem a participação do cidadão comum, pouco será efetivo: a produção de bens de consumo tem, com final da cadeia exatamente o cidadão. O foco tem que ser, portanto, no padrão de comportamento das pessoas. 

Modelos dando certo

Pensando no cidadão como foco, algumas ideias vem dando bons resultados e podem ser copiadas, com as adaptações necessárias. O plano é simples: pessoas comuns ganham um prêmio se separarem e destinarem o seu lixo corretamente. 

Um modelo inicial é o pagamento em moeda corrente. Um determinado volume de reciclado valeria um valor “x”. Este tipo de abordagem pode ser incluída no sistema de tributo (imposto) municipal, como forma de compensação, ou mesmo na taxa de lixo, nos locais que a possuem.

Uma segunda forma é a de atrelar a recompensa a aquisição de um produto ou serviço específico. Neste modelo, geralmente o cidadão recebe o beneficio, mas não escolher onde vai usá-lo. É o caso de “moedas verdes”que podem ser trocados por alimentos oriundos de produtores locais, agricultores familiares etc (Exemplo: município de Pinhão-PR)(1) e Santo André-SP (4).

Outra variação desta ideia é que a “moeda” possa ser usada em uma rede de pontos comerciais parceiros da Prefeitura (lojas, supermercados etc) que seriam incluídos no projeto com contrapartidas.

Estes parceiros seriam escolhidos de acordo com seu perfil de destinação de seus resíduos e, por sua vez, teriam a vantagem de ter clientes em potencial. O modelo está sendo testado em Montenegro – RS (2) e Gravatá – PE (3).

Começando devagar

Sua execução (do plano), por outro lado, exige planejamento e estratégia: há que se encontrar um equilíbrio entre os recursos, que serão destinados para pagar o prêmio, e o resultado desejado. Municípios não estão nadando em recursos para oferecer recompensas acima de sua capacidade; e, por outro lado, prêmios pouco atrativos não darão resultado. 

Por isso, cálculos do custo-benefício econômico serão importantes. O projeto vai economizar quanto à Prefeitura? Quantos quilos deixarão de ir ao lixo público? Vai aumentar a sua vida útil? Quanto de poluição será reduzida no vai-e-vem dos caminhões coletores? Tem impacto na geração ou perda de empregos?

Portanto, é preciso muito planejamento e um setor especifico da Administração Municipal para cuidar desta “troca”, mas pode dar certo se uma entidade (empresa ou organização social) tiver “expertise” no tema. Em muitos casos, será preciso mudar as leis municipais que cuidam da tributação e do plano diretor.

Ademais, projetos inovadores, complexos, ou que gerem dúvidas de seu resultados, devem ser iniciados com cautela. Por esta razão, uma das formas de implementação é por etapas ou por setor. Assim, cidades maiores, podem começar por bairros especifico e expandir aos poucos. 

É preciso, finamente, ter pés no chão. Cada cidade tem seu perfil, ambiente político e fatores sócio-culturais que devem ser levados em conta. O tema nao dá voto, o que é um fator negativo, mas que pode ser superado.

  1. https://g1.globo.com/pr/parana/caminhos-do-campo/noticia/2019/02/24/moradores-de-pinhao-recebem-moeda-em-troca-da-reciclagem-de-lixo-para-comprar-verduras.ghtml
  2. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2019/12/26/moeda-social-eco-pila-e-implementada-em-montenegro-na-troca-de-lixo-reciclavel.ghtml
  3. http://www.prefeituradegravata.pe.gov.br/moeda-verde-prefeitura-de-gravata-apresenta-programa-de-comercializacao-de-produtos-do-comercio-local-por-materiais-reciclaveis/
  4. https://www.greenmebrasil.com/informarse/green-economy/8868-moeda-verde-trocar-comida-lixo/

Fonte imagem: https://carolinecaracas.com.br/ideias-de-negocios-para-voce-prosperar/