Fogo na floresta: queimando o filme, perdendo negócios

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Foto: João Farkas

À partir de Julho começam as notícias sobre fogo no Brasil. Nos anos anteriores o foco era a Amazônia, já que neste período é comum o fenômeno na região. Como causa, sabe-se que, em parte, deve-se ao tradicional manejo do solo, embora os incêndios ilegais tenham papel importante (ligado ao clico desmate – secagem – fogo).

Por outro lado, este ano de 2020, além das florestas do Norte, surge a novidade do Pantanal.  A comoção foi maior devido a ser um ecossistema diferente, cujo fator falta-água pesa muito mais (a região pantaneira vive da subida e descida das água e este ano praticamente isso não ocorreu). 

Semelhante à Amazônia, no Pantanal o manejo de pastagens ocorre com fogo. O problema foi piorado pela seca sem precedente e por, provavelmente, haver o uso indiscriminado da prática do fogo sem o cuidado devido.

Perdendo dinheiro

Por claro há a perda de patrimônio natural, biodiversidade e o efeito de poluição local e acúmulo de carbono na atmosfera. Para além destes efeitos, estamos a perder também negócios e imagem. 

Nos negócios, seja qual for o culpado, a origem ou a solução, o país e os produtores rurais, que cumprem a legislação, só perdem com as queimadas. Negar não resolve, aliás piora. 

Vamos aos fatos. 

Parte do agronegócio adotou a estratégia da negação e da teoria do Brasil ser alvo dos concorrentes, uma campanha para tirar país da jogada. Também, que seus membros não são os autores do fogo. É preciso uma análise desapaixonada destes argumentos.

Primeiro que sim, os concorrentes querem que o país se enfraqueça, afinal são negócios. Para eles quanto mais levarmos a imagem de “degradador ambiental”, melhor – sobretudo quando se trata de Acordo Comerciais que tenham cláusulas de proteção ambiental. 

Mas, pensando em estratégia esta não é a melhor: não podemos dar motivos para que os concorrentes estejam corretos. Fazer isso é retroalimentar a cadeia de notícias negativas. É dar-lhes munição. 

Segundo, claro que nem todos os agricultores ilegais. Isto é óbvio. Mas as entidades dos agricultores honestos erram a adotar a posição de não cobrar o cumprimento da lei dos fora-da-lei. 

Seja qual for o culpado, o setor inteiro é atingido. Simples assim. Uma posição madura é reconhecer o problema e cobrar que os ilegais seja punidos. Isso mostraria “vontade” e enfraqueceria a cobrança dos países concorrentes.  

Perdendo imagem

Num segundo pilar de perdas há a dilapidação da imagem do país – que pôs sua vez causa danos aos negócios dos agricultores. Aquela se dá quando seus pares (outros países) passam a cobrar posição oficial mais firme para o enfartamento das queimadas e desmatamento.

Acordos comerciais com base em cumprimento de proteção ambiental, serão a norma: tanto pela necessidade em si de proteção do capital natural, quanto pelos interesses que outros países têm em reduzir o protagonismo do Brasil. Exemplo é o risco de não haver o Acordo Mercosul – União Europeia exatamente por isso. 

De novo: tudo que os concorrentes ao agro-brasileiro querem é exatamente o que parte do setor rural está fazendo: negando o problema e, no extremo, alguns mais radicais, incentivando a sua continuidade ou evitando resolvê-lo. Do ponto de vista da sobrevivência dos negócios não faz nenhum sentido.

O Brasil já perde espaço em diversas discussões (vide as rodadas da ONU de Biodiversidade, Mudanças do Clima), onde poderia se angariar não somente prestígio e liderança, mas também recursos.

Fora da caixinha

É possível ao produtor rural sair maior destas notícias negativas e mudar a atual posição de “réu” para proponente de soluções? E mais importante: não perder negócios disso tudo?  Sim, mas é preciso ter coragem para assumir algumas coisas.

É preciso que parte do setor, que insiste na teoria da perseguição, mude de estratégia. O cumprimento equilibrado da legislação ambiental não enfraquece o setor, muito pelo contrário:  o fortalece, dentro e fora do país.